Enfermaria nº 6

o beijo tchekhovTCHEKHOV, Anton Pavlovitch. O beijo e outras histórias. São Paulo: Editora 34, 2007 Tradução: Boris Schnaiderman.

Este é um dos contos mais longos de Tchekhov, e um dos mais bem escritos. Contém coesão, profundidade e discute questões relevantes para a vida russa de 1892 – quando foi escrito – e ainda hoje toca em pontos cruciais de nossa sociedade.
A Enfermaria nº 6 fica numa pequena cidade russa, no interior de algum distrito isolado, longe da estrada de ferro e, como aponta o autor, por isso sem os mesmos valores dos grandes centros urbanos, onde os jornais denunciam a corrupção e a violência. Nesta cidadezinha, porém, todos vêem o que está errado, mas ninguém é capaz de tomar alguma providência.
São idéias liberais que estão na cabeça de Tchekhov, um ocidentalista muito amigo de Turguêniev, o famoso autor de Pais e filhos e criador do termo niilismo. Contudo, essas questões políticas são deixadas de lado e dão lugar a uma discussão mais geral, porém mais profunda – a questão da vida em sociedade, que nos é tão importante, pois o homem é um ser cultural, e a cultura se estabelece na sociedade.
Voltando ao conto. A pequena enfermaria tem um estado de conservação deplorável, está caindo aos pedaços e contem apenas alguns pacientes. O guarda, Nikita, é um ser que bate nos internados e obedece incondicionalmente seus superiores; qualquer desvio da lei, para ele, é um pecado. O paciente mais importante e com maior destaque é um homem da pequena nobreza, Ivan Dmítritch Gromov, que enlouqueceu de repente, porque um dia viu dois presos serem levados por quatro guardas. Desse dia em diante, Ivan Dmítritch ficou com mania de perseguição, achando que poderia ser preso a qualquer momento, por ter cometido algum crime, mesmo sem querer.
Tchekhov o descreve assim: “A sua fala é desordenada, febril, como que num delírio, por arrancos e nem sempre compreensível, mas, em compensação, percebe-se nela, tanto na voz como nas palavras, algo extraordinariamente bom. Quando fala, você reconhece nele o louco e, ao mesmo tempo, a pessoa humana” (p.187). A loucura e a sanidade estão misturadas nessa pessoa, ele não é totalmente louco, mas também não é totalmente são. Aliás, seu medo de ser preso a qualquer momento é justificado: “um juiz, para destruir um homem inocente de todos os direitos civis e condená-lo aos trabalhos focados, só precisa do seguinte: tempo. Apenas tempo para a execução de umas poucas formalidades, pelas quais o juiz recebe um ordenado, e a seguir tudo acaba” (p.190).
É possível perceber uma crítica à burocracia e ao Estado moderno, despersonalizado e que enxerga tudo e todos como números, como apenas mais um, como massa. É uma modernização do Estado, é a entrada de valores ocidentais e industriais numa sociedade agrária, extremamente camponesa em que somente algumas poucas pessoas conseguem viver com dignidade. Então, o que Ivan Dmítritch sente vem da modernidade, é fruto dela, fruto da sociedade moderna.
Outro personagem importante é o médico Andréi Iefímitch, que chega na cidadezinha recém formado e sem experiência alguma para tomar conta da Enfermaria nº 6, sua responsabilidade a partir de então. Como a maioria dos jovens médicos russos, Andréi Iefímitch toma seu posto cheio de esperanças, mas também com muito medo, pois as cirurgias e partos que fez durante sua graduação não foram em pessoas de verdade. Faltava-lhe a experiência de abrir o corpo de uma pessoa com o bisturi – equipamento, aliás, que estava em falta na Enfermaria nº 6. Contudo, a boa vontade do jovem médico é capaz de superar tudo isso, durante um tempo.
Assim que chegou à enfermaria, onde Ivan Dmítritch e outros estavam internados, onde faltava o bisturi, onde o cheiro impedia a respiração e onde as baratas moravam, a impressão de Andréi Iefímitch foi a de que o “mais inteligente a fazer era soltar os doentes e fechar o hospital” (p.197), mas para isso seria necessário mais do que sua vontade e logo desistiu da idéia. “Com o passar do tempo, a ocupação evidentemente enfado-o com a monotonia e a inutilidade” (p.198). Outro ponto deplorável era o estado geral de saúde da cidadezinha, lamentável. “Num ano de exercício do cargo, recebera doze mil doentes, quer dizer, raciocinando com simplicidade, enganara doze mil pessoas” (p.199) – um médico sozinho e sem remédios ou equipamentos não tem condições de cuidar de uma cidade inteira, por menor que seja.
Bem, há todo o enredo de um conto, que o torna instigante, ainda mais tratando-se de Tchekhov, um dos grandes mestres desse gênero narrativo. Seu estilo seco, direto e áspero como uma lixa comove o leitor a cada palavra, provocando sensações estranhas e até mesmo desconfortáveis. A forma como ele escreve é o que ele descreve. Para quê uma linguagem rebuscada ou uma forma parnasiana, romântica e idealista para tratar do descaso de um ser humano pelo outro? As palavras têm que ser pensadas e enunciadas de modo a corresponderem com o seu objeto. É uma estética própria que permite Tchekhov causar o efeito de desconforto em seu leitor.
E ficamos desconfortável no momento em que Andréi Iefímitch passa a freqüentar diariamente a Enfermaria nº 6 para conversar com Ivan Dmítritch – a única pessoa com quem o médico julga possível estabelecer um diálogo. Assim, Ivan assume um papel de duplo, ou seja, ele é uma espécie de alter-ego do médico e diz aquilo que Andréi queria pensar, mas que já lhe é completamente impossível por conta de sua indiferença com o mundo. O paciente tenta mostrar ao doutor que há dor, sofrimento e que tudo isso deveria ser superado, de que há alguma coisa errada no mundo; o médico, por sua vez, vê tudo com indiferença, dor ou não dor, fraque ou roupão de hospital, todos morrerão.
A partir desse momento, em que Andréi Iefímitch e Ivan Dmítritch estabelecem um diálogo, os amigos e pessoas que vivem ao redor do médico começam a olhá-lo com desconfiança. Sua vida, que fora extremamente regrada e monótona havia ganhado algo diferente, algo que ele gostava, uma cor nova. Então sua rotina mudou, seus horários não eram mais fixos, os amigos não o encontravam mais em casa – Andréi Iefímitch estava o tempo todo no hospital conversando com Ivan Dmítritch.
O inevitável aconteceu: as pessoas julgaram que o médico havia enlouquecido e já deveria se aposentar. Por fim, de modo irônico, o médico, símbolo da ciência e da esperança, acaba internado no hospital que administrava. Uma fala do próprio Andréi Iefimitch nos ajuda a compreender a situação: “Quando a sociedade se isola dos criminosos, dos doentes psíquicos e da gente incômoda em geral, ela é inflexível. Só lhe resta o seguinte: acalmar-se com o pensamento de que sua permanência aqui é indispensável” (p.212, destaque meu). Sim, a sociedade fica inflexível, mas o sentimento de conformidade é praticamente impossível de adquirir.
Quando fica é colocado preso no hospital, Andréi Iefímitch não consegue se conter. Começa a se debater, a pedir para sair, desespera-se porque não suporta a idéia de ficar isolado num hospital. O médico acaba percebendo aquilo que seu duplo, Ivan Dmítritch lhe chamava a atenção, não é possível ficar indiferente. Existe dor, sofrimento, perda, medo e tudo isso independente da morte, que é para todos. A vida tem dignidade, ou deveria ter, mas que foi arrancada das pessoas pela modernidade industrial capitalista. A coisificação do homem, a reificação da mercadoria como sentido de vida, isso causa uma espécie de indiferença com a vida humana, ou seja, um estado de loucura! Como é possível ver uma pessoa sofrendo e não sentir compaixão? Só estando num estado de distorção da realidade, um estado de esquizofrenia, no qual a mercadoria e o dinheiro são mais importantes do que o ser humano.
Numa sociedade como a da Rússia do fim do século XIX esse contraste torna-se muito mais aparente e incômodo. Muito outros autores, além de Tchekhov, o explicitaram, como Dostoiévski, Tolstói, Turguêniev, Leskov e outros. É interessante notar que no Brasil há um conto parecido com este, do nosso grande Machado de Assis, O Alienista. Nele, o médico responsável por um manicômio, assim como em Enfermaria nº 6, acaba internado junto com toda a cidade, que o médico havia internado por ter percebido algum tipo de desvio do padrão.
Enfim, a lição fica para nós pensarmos na nossa sociedade…

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3 Respostas to “Enfermaria nº 6”

  1. blogs oswald Says:

    Sekkel! Claro que eu me lembro de você! Nos encontramos, depois que você acabou o colégio, lá na USP, creio que na História. Daí você me mandou uns e-mails depois. Escuta, rapaz, este seu blog tá divino! Tem coisas que me interessam muuuuuito aqui porque, como você, sou apaixonado pela literatura e a história da Rússia. Já ouviu falar no Lo Gatto, estudioso de literatura russa? O livro desse sujeito é uma raridade e esses dias, passeando lá pela biblioteca do Oswald, acredita que eu encontrei uma edição da “História ilustrada da literatura”? Agora descobri que na verdade é possível achar o livro pelo Estante Virtual. Pretendo publicar logo mais um artigo que escrevi há uns anos sobre o “Pais e filhos” do Turguêniev. Te aviso quando for o caso. Agora, esse seu blog eu vou divulgar o quanto puder, porque ele é muito bom. Parabéns. E obrigado pela visita. Abração.

    • André Sekkel Says:

      Adriano, que bom que gostou do meu blog e melhor ainda que se lembra de mim!!!
      Eu já ouvi falar do Lo Gatto, mas nunca li nada dele. Li um texto do Ripellino, “Sobre Literatura Rusa” (está em espanhol), que é um outro grande crítico de literatura russa. Estou fazendo alguns cursos lá na USP, como optativas, de cultura, crítica literária e língua russas. Me afeiçoei tanto que estou aprendendo russo!
      Se você se interessa por esses assuntos, recomendo dar uma passada no departamento de russo lá na Letras, eles são muito bons!
      Que bom retomar o contato com você!
      Abraços,
      André Sekkel.

  2. Isabel Cristina Fracassi Says:

    Muito bom. Apreciei especialmente a referência a O Alienista, pois ainda não havia encontrado nenhum comentário que vinculasse ambos os contos, embora a temática seja a mesma.

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