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Lady Macbeth do distrito de Mtzensk

16 de dezembro de 2009

LESKOV, Nikolai. Lady Macbeth do distrito de Mtzensk. São Paulo: Editora 34, 2009. Tradução de Paulo Bezerra.

Nikolai Leskov (1831-1895) nasceu na Rússia, na província de Oriol, no povoado de Gorókhovo, às margens do rio Volga. Sua família vinha de uma linhagem de membros do clero: seu avô, seu bisavô e seu tataravô foram todos sacerdotes do povoado de Leski, no distrito de Karatchevski. O nome Leskov deriva desse distrito. O pai de Nikolai era funcionário público e sua mãe, nobre.
Nikolai Leskov teve uma aia mulher de soldado, conviveu com camponeses, artesãos, comerciantes, nobres decadentes e vários outros tipos de pessoas, algumas muito excêntricas. “Portanto um vasto mosaico humano formado por diferentes segmentos sociais, cada um com seu modo peculiar de ver e sentir o mundo, com suas histórias e sua linguagem específica. Tudo isso faz de Leskov um grande conhecedor da vida e dos costumes russos, e transborda numa grande policromia de modos de vida e linguagens que o autor incorpora à sua obra como uma espécie de enciclopédia da vida e dos falares russos, marca particular do seu estilo” (Bezerra, p. 83).
O texto de Leskov é mesmo carregado dessas experiências obtidas durante sua vida. Ele teve a oportunidade de viajar por quase toda a extensão do território russo e, com isso, conhecer muitos dos diferentes costumes das diferentes regiões. Muitos desses lugares faziam parte de um itinerário de seus trabalhos. Obteve, inicialmente, um cargo no Fisco russo em Kíev; depois Leskov trabalhou como administrador de fazenda, sendo necessário fazer diversas viagens por toda a Rússia.
Essa experiência de vida é exaltada por Walter Benjamin, em seu famoso texto “O narrador: considerações sobre a obra de Nokolai Leskov”. O autor russo teria uma capacidade de compartilhar suas experiências através da narrativa, que só é possível de acontecer quando se compartilham experiências. Benjamin diz que esse gênero está se extinguindo na sociedade, por falta de experiências, adquiridas, principalmente, durante as viagens, quando as pessoas entram em contato com algo novo, diferente, que é valioso por se tornar uma experiência.
Leskov, ao escrever seus contos ou novelas, preocupa-se em manter a oralidade. Ele atribui ao camponês de sua novela, a fala mais próxima possível da de um camponês verdadeiro, mantendo os equívocos linguísticos. Do mesmo modo, um nobre, ou uma comerciante, falam como essas personagens costumam conversar realmente. Isso dá ao seu texto um tom diferenciado, ainda mais na época em que escreveu, na qual os escritores primavam pela beleza estética do texto.
Nesta novela recém publicada, Lady Macbeth do distrito de Mtzensk, o enredo não é muito original, mas a narrativa, a maneira como a estória nos é contada, é extremamente rica e faz do texto algo diferente, interessante, que prende o leitor o tempo todo, obrigando-o a lê-lo num único fôlego.
Catierina Lvovna Izmáilova, de origem humilde, é mulher de um próspero comerciante, Zinóvi Boríssitch Izmáliov. Ela sente tédio em seu casamento, seu marido não a trata bem, reprime-a o tempo todo por qualquer coisa, interessa-se exclusivamente pelos seus lucros e negócios. Cansada dessa situação, a jovem mulher é atraída por um dos servos de seu marido: um rapaz musculoso, bonito, interessado em subir socialmente e, aproveitando a chance que lhe é dada, seduz a patroa. Um típico caso de traição, que teria tudo para ser apenas mais um conto sobre o tema. Mas Lekov faz a estória ficar interessante!
O gênio inescrupuloso de Catierina nos deixa sem fôlego, seu descaso com as consequências de suas ações nos encantam, enquanto que sua inocência ao deixar-se seduzir pelo servo Sergiêi nos faz pensar em sua estupidez. Entretanto, encantada com o romance vivido com seu novo amor, durante uma ausência inesperada do marido, Catierina não consegue mais pensar numa vida como a que levava antes, sem prazeres (de todos os tipos), sem liberdade, sem nenhum colorido que lhe desse uma razão de vida. É por isso que decide cometer o assassinato de Zinóvi, quando ele volta um dia de madrigada. Serguiêi, sem saber dos planos da patroa/amante, acaba se envolvendo no caso, contribuindo para sua ascensão social a comerciante.
O narrador da novela descreve a protagonista, numa determinada altura da trama, de uma forma forte, marcante, intrigante: “Aliás, para ela não existia a luz nem a escuridão, nem o mal nem o bem, nem o tédio nem a alegria; ela não compreendia nada, não amava ninguém, não amava nem a si mesma” (p. 65). Um descrição que joga com todos os conceitos clichês de uma novela: a religião, a felicidade, o intelecto forte, o amor e o amor à vida, mas de uma maneira a deixar tudo isso vazio – fazendo do clichê algo diferente, não-clichê, interessante. Como seria a vida de uma mulher assim?, podemos pensar. Como ela ficou desse jeito, o que a levou a tal ponto? São questões que podem ser colocadas durante a leitura e que só encontraremos as respostas em nossos próprios pensamentos e divagações. Walter Benjamin esclarece essa questão: “Com efeito, numa narrativa a pergunta – e o que aconteceu depois? – é plenamente justificada. O romance, ao contrário, não pode dar um único passo além daquele limite em que, escrevendo na parte inferior da página a palavra fim, convida o leitor a refletir sobre o sentido de uma vida” (Benjamin, p. 213). Para ele, a narrativa tem um sentido de “moral da história”, enquanto o romance carrega “o sentido da vida”. A moral, ao contrário do sentido da vida, pode ser compartilhada por todos, enquanto que o sentido da vida é buscado por cada um.
A narrativa de Leskov, como Benjamin diz muito bem, não termina no ponto final. A história continua viva para ser recontada, reinventada, transformada. “Não se percebeu devidamente até agora que a relação ingênua entre o ouvinte e o narrador é dominada pelo interesse em conservar o que foi narrado” (Benjamin, p. 210), e é nesse sentido que nos apropriamos da novela de Leskov. Quando terminamos de lê-la, a vontade de compartilhar a estória com outra pessoa é enorme. A experiência transmitida por ela é apreendida pelo leitor, ou pelo ouvinte, que a transforma em algo seu e que deve ser transmitido e retransmitido.

Referência bibliográfica

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: obras escolhidas, vol. 1. São Paulo: Editora Brasiliense, 1993. Tradução de Sergio Paulo Rouanet.

BEZERRA, Paulo. “A narrativa como sortilégio”, In: LESKOV, Nikolai. Lady Macbeth do distrito de Mtzensk. São Paulo: Editora 34, 2009.

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