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Recordações do escrivão Isaías Caminha

31 de julho de 2012

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BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Alfredo Bosi, na introdução que faz das Recordações do escrivão Isaías Caminha, obra de estreia de Lima Barreto, afirma, logo no começo de seu texto, que o autor “adota os recursos da escrita realista autobiográfica, já trabalhada em tom reflexivo por Flaubert na Educação Sentimental e nos romances em primeira pessoa de Dostoiévski Humilhados e ofendidos e Recordações da casa dos mortos.”[1] De fato, são muitas as referências da vida de Lima Barreto presentes na história de Isaías, mas creio que o romance acaba se esquivando um pouco dos relatos autobiográficos.

Penso que Lima Barreto se aproxima muito mais de Dostoiévski que de Flaubert. É verdade que há um realismo em sua obra, mas há passagens importantes de Recordações que são citações indiretas ao escritor russo. Um leitor atento de Memórias do subsolo logo nota que na seguinte passagem da via de Caminha há referência à vida daquele baixo funcionário dostoievskiano:

“Num relâmpago, passaram-me pelos olhos todas as misérias que me esperavam, a minha irremediável derrota, a minha queda aos poucos – até onde? até onde? E ficava assombrado que aquela gente não notasse o meu desespero, não sentisse a minha angústia… ‘Imbecis!’, pensei eu. Idiotas que vão pela vida sem examinar, vivendo quase por obrigação, acorrentados às suas misérias como galerianos à calceta!” (p. 121).

A camada inferior à qual está submetida o funcionário de Memórias de subsolo é, de certa maneira, reinterpretada por Lima Barreto. A Rússia de meados do XIX era uma sociedade extremamente hierarquizada e é isso que incomoda o herói da novela de Dostoiévski, pois ele é culto, inteligente, com boas ideias, dignidade e um baixo funcionário – o que o torna desprezível a priori. No Rio de Janeiro de Lima Barreto acontece algo semelhante. Isaías é desprezível também e igualmente culto, com boas ideias e inteligente. O Brasil do final do XIX, republicano já, não tem uma hierarquia oficialmente definida, mas há uma certa cultura, uma certa forma de se organizar a sociedade, que exclui o negro e o despreza. Isaías Caminha, como Barreto, é negro e isso já basta para que seja desqualificado a priori, tal como o personagem de Dostoiévski.

Aliás, na novela russa o protagonista, em certa passagem, anseia por uma briga; enquanto anda pelas ruas de São Petersburgo, vê um homem sendo jogado pela janela de um casa de bilhas e deseja ser jogado também, tal era o seu sentimento de angústia e indignação. Ele entra no estabelecimento, procurando briga:

“Logo de início, um oficial teve atrito comigo.

Eu estava em pé junto à mesa de bilhar, estorvava a passagem por inadvertência, e ele precisou passar; tomou-me então pelos ombros e, silenciosamente, sem qualquer aviso prévio ou explicação, tirou-me do lugar em que estava, colou-me em outro e passou por ali, como se nem sequer me notasse. Até pancadas eu teria perdoado, mas de modo nenhum poderia perdoar que ele me mudasse de lugar e, positivamente, não me notasse.

O diabo sabe o que não daria eu, naquela ocasião, por uma briga de verdade, mais correta, mais decente, mais – como dizer? – literária! Fui tratado como uma mosca. Aquele oficial era bem alto, e eu sou um homem baixinho, fraco. A briga, aliás, estava em minhas mãos: bastava protestar e, naturalmente, seria posto janela afora. Mas eu mudei de opinião e preferi… apagar-me, enraivecido.”

O funcionário fica indignado porque não é sequer notado pelo oficial, que simplesmente o pega pelos ombros e afasta de seu caminho, como se fosse uma mosca que se espanta da mesa. De pronto, ele deseja brigar com o oficial, mas “preferi… apagar-me, enraivecido.” No romance de Lima Barreto, em certa altura da narrativa, Isaías sente algo parecido quando anda no bonde:

            “Um sujeito entrou no bonde, deu-me um grande safanão, atirando-me o jornal ao colo, e não se desculpou. Esse incidente fez-me voltar de novo aos meus pensamentos amargos, ao ódio já sopitado, ao sentimento de opressão da sociedade inteira… Até hoje não me esqueci desse episódio insignificante que veio reacender na minha alma o desejo feroz de reivindicação. Senti-me humilhado, esmagado, enfraquecido por uma vida de estudo, a servir de joguete, de irrisão a esses poderosos todos por aí.” (p. 122).

Ambos os personagens desejam serem notados. Aqueles que esbarram neles, que os tiram do caminho, não os percebem enquanto pessoas, mas como algo desprezível. Pedir-se-ia desculpas a alguém que incomodamos; mas, para isso é necessário ver o outro – certamente o oficial russo e o passageiro do bonde não viram o baixo funcionário e Isaías, pelo menos não como pessoas.

O personagem de Dostoiévski, depois do episódio ocorrido na casa de bilhar, anseia por um pedido de desculpas que não vem. Ele, então, passa a frequentar a Avenida Niévski enquanto planeja um modo de se fazer notar pelo oficial e acaba percebendo que seu “inimigo” frequenta a mesma Niévski. Seu plano passa a ser trombar com esse oficial, a fim de se fazer notar:

“Do modo como eu me preparava e ajeitava para aquilo, parecia que mais um pouco e íamos dar o encontrão; mas reparava e… mais uma vez eu tinha cedido caminho, e ele passava sem sequer me notar. […] De uma feita, até me decidira de vez, mas, por fim, apenas caí diante dele, porque, no instante derradeiro, à distância de uns dois vierchokes, faltou-me coragem.”

Isaías Caminha também tem essa ânsia por ser notado, por ser considerado uma pessoa nessa sociedade brasileira do início do século XX, mas como ele era desprezado…

“Veio-me um assomo de ódio, de raiva má, assassina e destruidora; um baixo desejo de matar, de matar muita gente, para ter assim o critério da minha existência de fato. Depois dessa violenta sensação na minha natureza, invadiram-me uma grande covardia e um pavor sem nome: fiquei amedrontado em face das cordas, das roldanas, dos contrapesos da sociedade; senti-os por toda parte, graduando os meus atos, anulando os meus esforços; senti-os insuperáveis e destinados a esmagar-me, reduzir-me ao mínimo, a achatar-me completamente.” (p. 121).

Certamente que essas passagens são apenas fragmentos dos textos analisados, mas eles servem para exemplificar o ponto de aproximação que existe entre Lima Barreto e Dostoiévski. E, assim como o romancista russo, o brasileiro não irá se preocupar em fazer um romance autobiográfico. Se, por ventura aparecem elementos particulares do autor na vida de suas personagens, isso não faz do romance autobiográfico. Essas referência servem como pontos de encontro entre a ficção e a realidade. Um bom leitor de Dostoiévski certamente é capaz de identificar diversas passagens de seus escritos que foram inspirados em acontecimentos de sua vida – como a novela Um jogador. Entretanto, não é o relato autobiográfico que está em jogo, mas a percepção da sociedade e dos sentimentos presentes nela. Ao descrever o acontecimento na casa de bilhar, o autor russo não quer descrever unicamente os acontecimentos, tal como o faria um historiador do século XIX; ele está preocupado em descrever um estado de espírito.

Da mesma forma, Lima Barreto não se preocupa com as referências autobiográficas. Se fosse assim, seu Recordações de Isaías Caminha seria um romance duplamente autobiográfico. Ao que me parece, a preocupação do autor, aí sim, tanto de Lima Barreto, quanto de Isaías Caminha, é descrever um certo estado em sociedade; não são acontecimentos que compõem o principal da obra, mas um certo sentimento. Numa passagem metalinguística isso parece ficar evidente:

“Penso – não sei por quê – que é este meu livro que me está fazendo mal… E quem sabe se excitar recordações de sofrimentos, avivar as imagens de que nasceram não é fazer com que, obscura e confusamente, me venham as sensações dolorosas já imortais? Talvez mesmo seja angústia de escritor, porque vivo cheio de dúvidas, e hesito de dia para dia em continuar a escrevê-lo. Não é o seu valor literário que me preocupa; é sua utilidade para o fim que almejo.” (p. 136).

Pode-se imaginar o que deixa Isaías mal. As passagens citadas até aqui são de sofrimento. Vale lembrar que as recordações estão sendo escritas por Isaías na medida em que lemos o livro e, portanto, as sensações presentes no personagem são atuais (na medida em que tanto o Isaías personagem, como o autor das recordações são o mesmo e, em nenhum momento se faz presente Lima Barreto).

Em Recordações do escrivão Isaías Caminha, Lima Barreto pretende fazer um romance sobre o preconceito, a humilhação social, sobre as cordas, roldanas e contrapesos da sociedade. As primeiras páginas do livro dão o tom. Isaías descreve como foi tratado mal ao chegar no Rio de Janeiro. As pessoas, sem o conhecerem, o tratavam como um inferior e ele, inocente e sem saber o motivo daquele tipo de tratamento, questiona-se sobre a próprio fisionomia, a própria moral, como se o problema estivesse realmente nele e não na descriminação social do negro.

Como em Dostoiévski, Recordações usa elementos autobiográficos e acontecimentos verdadeiros (como a referência à Revolta da Vacina, presente como a lei da obrigatoriedade dos sapatos no romance) para tratar de um assunto que está fora da pessoa Lima Barreto e Isaías Caminha; o livro trata do preconceito, do sentimento de quem é atacado por isso.


[1] BOSI, Alfredo. “Figuras do eu nas recordações de Isaías Caminha”, In: BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 10.

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Problemas da Poética de Dostoiévski (parte 3)

16 de agosto de 2009

problemas da poética Parte 1
Parte 2

Capítulo 3: “A Idéia em Dostoiévski”

Neste capítulo, Bakhtin se deterá na representação da idéia nos romances de Dostoiévski. Ele inicia seu texto afirmando que nos romances de teor monológico, como os de Tolstói e Turguêniev, a idéia não pode ser representada, apenas assimilada. Nesse caso, só o autor possui uma idéia, já acabada e definida, que é colocada na boca das personagens. Não há discussão de idéias, ela já foi feita fora do romance. Nas palavras de Bakhtin: “O autor é o único que sabe, entende e influi em primeiro grau. Só ele é ideólogo. As idéias do autor levam a marca de sua individualidade. Deste modo, a significação ideológica direta e plena e a individualidade nele se combinam sem se enfraquecerem mutuamente. Mas apenas nele. Nos heróis, a individualidade destrói a significação das suas idéias e quando essa significação se mantém elas descartam a individualidade dos heróis e combinam-se com a individualidade do autor”.
Bakhtin quer dizer que as personagens, por exemplo de Tolstói, não têm uma idéia própria, somente assimilam as idéias do autor. A intenção, neste caso, é a de construir uma conclusão ideológica. Assim, o romance monológico é incapaz de representar uma idéia, pois a separa da personagem. Como veremos mais adiante, ainda neste capítulo, Bakhtin, assim como Dostoiévski, entende que a idéia não existe por si; ela só é possível no homem. Quando, no romance, se pretende representar a idéia, e não o homem, é sempre a idéia do autor. “Independente da função que possam desempenhar, essas idéias do autor não são representadas em sua totalidade: representam e orientem internamente a representação, ou enfocam o objeto representável ou, por último, acompanham a representação como ornamento semântico separável. Elas são expressas diretamente, sem distância. Nos limites do universo monológico que elas formam, a idéia não pode ser representada. Esta é assimilada, polemicamente negada ou deixa de ser idéia”.
A partir da definição do que é a não representação da idéia, Bakhtin começa a tratar de Dostoiévski. E ele assim começa: “Dostoiévski sabia representar precisamente a idéia do outro, conservando-lhe toda a plenivalência enquanto idéia, mas mantendo simultaneamente a distância, sem afirmá-la nem fundi-la com a sua própria ideologia representada.
“Na criação dostoievskiana, a idéia se torna objeto de representação artística e o próprio autor tornou-se um grande artista da idéia”.
Nos romances de Dostoiévski a idéia não está pronta ou acabada. Ela ainda não foi definida. O exemplo que Bakhtin mais utiliza é o de Crime e castigo. Raskólnikov, o herói do romance, tem a sua idéia exposta dentro do diálogo com outras idéias, ela não é dada expressamente. Ao contrário, ela é torneada a partir da sua relação com outras idéias. “Dostoiévski conseguiu ver, descobrir e mostrar o verdadeiro campo da vida da idéia. A idéia não vive na consciência individual isolada de um homem: mantendo-se apenas nessa consciência, ela degenera e morre. Somente quando contrai relações dialógicas essenciais com as idéias dos outros é que a idéia começa a ter vida, isto é, a formar-se, desenvolver-se, a encontrar e renovar sua expressão verbal, a gerar novas idéias”.
Enquanto artista, Dostoiévski, segundo Bakhtin, não criava suas idéias como os filósofos. Ele era capaz de diagnosticar, auscultar (este é o termo utilizado por Bakhtin), as idéias presentes na própria realidade, ou seja, as idéias que já têm vida. E elas têm história, ou seja, têm uma dimensão temporal (presente, passado e futuro), que, num recorte feito pelo autor, de um determinado tempo e espaço, conflui os três tempos num único presente. “Deste modo, no plano da atualidade confluíam e polemizavam o passado, o presente e o futuro”.
Nos romances de Dostoiévski, polifônicos, como já afirmado em capítulo anterior, o único teor monológico que existe são suas personagens, enquanto sujeitos, enquanto um “eu” com suas idéias e ideologias. “O ‘eu’ que tem consciência e julga e o mundo enquanto seu objeto são aqui representados no plural e não no singular. Dostoiévski superou o solipsismo. Não reservou para si a consciência idealista mas para os seus heróis, e não a reservou para uns mas para todos. Ao invés de atitude do “eu” que é consciente e julga em relação ao mundo, ele colocou no centro da sua arte o problema das inter-relações entre esses “eu” que são conscientes e julgam”.
Os heróis de Dostoiévski têm uma consciência idealista e, até certo ponto, monológica. A polifonia acontece na relação entre esses personagens dentro do romance. É o diálogo, expondo todas as idéias e colocando-as em relação umas com as outras. Apesar de cada personagem ter sua própria idéia, plenivalente, já formada, no romance Dostoiévski as expõem através do diálogo. A idéia não é dada ou exposta, ela é construída. A partir da relação com o outro é que se forma a idéia e é assim que ela é representada em Dostoiévski.

Problemas da Poética de Dostoiévski (parte 2)

8 de agosto de 2009

problemas da poética Para ler sobre o capítulo 1 clique aqui.

Capítulo 2: “A personagem e seu enfoque pelo autor na obra de Dostoiévski”
Depois de definir o que é o romance polifônico, Bakhtin vai estudar o papel das personagens dostoievskianas. Já no terceiro parágrafo, Bakhtin fala do interesse que Dostoiévski tem com a personagem: “A personagem interessa a Dostoiévski enquanto ponto de vista específico sobre o mundo e sobre si mesmo, enquanto posição racional valorativa do homem em relação a si mesmo e à realidade circundante. Para Dostoiévski não importa o que a sua personagem é no mundo, mas acima de tudo, o que o mundo é para a personagem e o que ela é para si mesma”. Essa concepção nova de personagem requer uma nova caracterização artística. O que deve ser revelado e caracterizado, portanto, não é o ser determinado, mas a sua “consciência e autoconsciência, em suma, a última palavra da personagem sobre si mesma e sobre seu mundo”.
O que vemos, nas personagens de Dostoiévski, é o modo como elas vêem o mundo e tomam consciência de si mesmas. E, segundo Bakhtin, esse traço característico já está presente em Dostoiévski desde seu primeiro romance, no qual o autor faz Makár Diévuchkin ler O Capote, de Gógol, e encará-lo como novela de si mesmo. Bakhtin chega mesmo a afirmar que “Dostoiévski realizou uma espécie de revolução coperniciana em pequenas proporções, convertendo em momento da autodefinição do herói o que era definição sólida e conclusiva do autor”. Ou seja, não é o autor quem defina a personagem, mas ela mesma vai tomando consciência de si mesma e, assim, define-se a si própria, como define seu modo de ver o mundo. E isso acontece com cada personagem do romance, seja em Crime e castigo, Os demônios, ou Os irmãos Karamázov. Para esclarecer a questão vou citar, mais uma vez, o que diz Bakhtin: “O autor reserva efetivamente ao seu herói a última palavra. É precisamente desta, ou melhor, da tendência para ela que o autor necessita para o plano do herói. Ele não constrói a personagem com palavras estranhas a ela, com definições neutras; ele não constrói um caráter, um tipo, um temperamento nem, em geral, uma imagem objetiva do herói; constrói precisamente a palavra do herói sobre si mesmo e sobre o seu mundo”.
Um dos pontos mais interessantes deste capítulo é a comparação que Bakhtin faz entre Tolstói e Dostoiévski, dois dos maiores escritores russos do século XIX. No primeiro não há romance polifônico: “O mundo de Tolstói é monoliticamente monológico: a palavra do herói repousa na base sólida das palavras do autor sobre ele”, enquanto que em Dostoiévski “a palavra do autor se contrapõe à palavra plenivalente e totalmente genuína da personagem”. Assim, Dosoiévski inaugura uma nova posição do autor com relação ao herói de seu romance, uma posição que é dialógica, ou seja, que está em diálogo. A voz do herói é tão verdadeira quanto a do autor e os dois dialogam entre si. Isso garante a liberdade do herói, sua falta de acabamento, sua incompletude, que, para Dostoiévski, é a representação mais realista do homem.
Essa independência do herói, sua liberdade com relação ao autor, pode parecer contraditória. Para solucionar esta questão Bakhtin faz o seguinte raciocínio: “Pode parecer que a autonomia do herói contrarie o fato de ele ser representado inteiramente apenas como um momento da obra de arte e, conseqüentemente, ser, do começo ao fim, totalmente criado pelo autor. Em realidade, tal contradição não existe. Afirmamos a liberdade dos heróis nos limites do plano artístico e neste sentido ela é criada do mesmo modo que a não-liberdade do herói objetificado. Mas criar não significa inventar. Toda criação é concatenada tanto por suas leis próprias quanto pelas leis do material sobre o qual ela trabalha. Toda criação é determinada por seu objeto e sua estrutura e por isto não admite o arbítrio e, em essência, nada inventa mas apenas descobre aquilo que é dado no próprio objeto”.
Em linhas gerais, nisto consiste o segundo capítulo de Problemas da Poética de Dostoiévski. O assunto pode parecer confuso, ou no mínimo complicado, mas o espaço que me reservo aqui é o de, simplesmente, indicar alguns pontos interessantes do que leio e, assim, criar uma expectativa e uma vontade de leitura.

Problemas da Poética de Dostoiévski

31 de julho de 2009

problemas da poéticaBAKHTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoiévski. Tradução de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

Para entender melhor o livro de Bakhtin, sua obra-prima, sobre Dostoiévski, decidi escrever sobre os capítulos, conforme os leio, e não sobre o livro todo de uma vez só. As idéias que o autor desenvolve são muito complicadas para serem resumidas, depois, numa resenha geral, por isso a intenção de escrever sobre cada capítulo.

Capítulo 1: “O romance polifônico de Dostoievski e seu enfoque na crítica literária”
Neste primeiro, Bakhtin define o que entende por “romance polifônico”: “Dostoiévski é o criador do romance polifônico (…). A voz do herói sobre si mesmo e o mundo é tão plena como a palavra comum do autor; não está subordinada à imagem objetificada do herói como uma de suas características mas tampouco serve de intérprete da voz do autor. Ela possui independência excepcional na estrutura da obra, é como se soasse ao lado da palavra do autor, coadunando-se de modo especial com ela e com as vozes plenivalentes de outros heróis”.[1] A idéia do autor é de que Dostoiévski conseguiu criar uma nova estética do romance, onde as personagens são, por assim dizer, independentes, plenivalentes, autônomas. Por exemplo, o que Iven Karamázov pensa, em Os Irmãos Karamázov, não é o que pensa Dostoiévski.
Bakhtin define melhor o que quer dizer: “A multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autência polifonia de vozes plenivalentes constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoiévski. Não é a multiplicidade de caracteres e destinos que, em um mundo objetivo uno, à luz da consciência una do autor, se desenvolve nos seus romances; é precisamente a multiplicidade de consciências eqüipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade. Dentro do plano artístico de Dostoiévski, suas personagens principais, são, em realidade, não apenas objetos do discurso do autor mas os próprios sujeitos desse discurso diretamente significante”.[2]
Grosso modo, isso tudo quer dizer que Dostoiévski está, ainda, sozinho no estilo, por ele criado, do romance polifônico. A grande maioria dos romances antes dele são de caráter monólogo, ou seja, existe no romance um mundo objetivo que é correlato à consciência una e única do autor.
Para definir melhor sua teoria, Bakhtin faz um apanhado geral das críticas, até então, existentes sobre Dostoiévski. Assim, o primeiro autor em sua mira é Vyatcheslav Ivánov, que definiu o romance de Dostoiévski como “romance-tragédia”: “Achamos incorreta a definição básica (…) feita por Ivánov. Ela é característica como tentativa de reduzir uma nova forma artística à já conhecida vontade artística”. [3] Nas diversas críticas que Bakhtin faz aos estudiosos de Dostoiévski aparece essa, em especial, da não compreensão, ou da não percepção de que ele criou uma nova estética do romance. Alguns chegam perto e falam de polifonia, como Leonid Grossman, que aproxima o romance dostoievskiano à música, à teoria de Glinka de que tudo é contraponto. Transferindo isso para o romance, deduz Bakhtin que “pode-se dizer que, para Dostoiévski, tudo na vida é diálogo, ou seja, contraposição dialógica”.[4] “O romance polifônico é inteiramente dialógico. Há relações dialógicas entre todos os elementos da estrutura romanesca, ou seja, eles estão em oposição como contraponto (…).
“Dostoiévski teve a capacidade de auscultar relações dialógicas em toda a parte, em todas as manifestações da vida humana consciente e racional; para ele, onde começa a consciência começa o diálogo”.[5]
Outra teoria que Bakhtin critica, é a de Lunatcharsky. Para este, o romance polifônico de Dostoiévski só pode ser feito por causa do capitalismo de sua época. As contradições que apareceram junto com o capitalismo russo permitiram o romancista captar sua época do jeito que captou, através da duplicidade, da contradição, do contraponto, da polifonia. A crítica que Bakhtin faz é simples e incisiva: Lunatcharsky só pode ver os fatores genéticos-históricos da obra de Dostoiévski; ele não conseguiu ver a criação artística que estava por trás dessa representação polifônica. A idéia de que o capitalismo influiu na composição dos romances é aceita, mas não como fator determinante. Não foi o meio que determinou a criação, por exemplo, de Crime e Castigo; mas ele influiu na maneira criativa de Dostoiévski pensar o romance. Sem o capitalismo russo, ele não poderia inovar o romance, mas sem idéias, sem criatividade, sem uma nova concepção de estética romanesca, que são coisas não determináveis pelo meio, não teria surgido romances dostoievskianos.
Talvez o que mais tenha sido influenciado pela atmosfera no qual foi escrito, é Memórias do Subsolo.[6] O livro foi muito bem analisado, nesse aspecto temporal, por Marshall Berman, que viu, num ponto geralmente negligenciado do romance, uma das reviravoltas mais marcantes que a modernidade trouxe para a Rússia do século XIX: “a insurreição do inferior social”. Quero dizer, um homem de classe mais baixa do que outro se sentiu em igualdade com seu, por assim dizer, superior social. Esse homem da camada mais baixa, que é o homem do subsolo, ao andar na calçada, teria, segundo os costumes da Rússia czarista, dar passagem ao homem de classe social mais elevada que a sua. Contudo, os tempos mudaram, por volta de 1860. O romance de Dostoiévski conta justamente o enfrentamento que o homem do subsolo quer fazer com esse ser superior. Ele não quer dar mais passagem, não sente mais nessa obrigação. Toda a aflição que esse homem do subsolo passa, o plano de enfrentar um superior ao não lhe dar passagem na calçada, o sofrimento que isso causa, tudo isso é descrito no romance, que captou a essência da mudança pela qual a Rússia passava em meados do século XIX.
Bakhtin também comenta essa novela, ao falar de Grossman; aliás, é a passagem que ele elogia: “Segundo Gorssman, a base da composição de cada romance de Dostoiévski é o ‘princípio das duas ou várias novelas que se cruzam’, que completam pelo contraste umas às outras e estão relacionadas pelo princípio musical da polifonia”, e, citando Grossman: “A novela divide-se em três capítulos… O primeiro terá cerca de 1 ½ folhas… Será preciso editá-los separado? Neste caso, provocará muitas zombarias, tanto mais que com os outros capítulos (os mais importantes) ele perde todo o seu suco. Você compreende o que é, em música, uma passagem. O mesmo ocorre no caso presente. No primeiro capítulo parece que há tagarelice; mas de repente essa tagarelice culmina numa inesperada catástrofe nos dois últimos capítulos”.[7] A novela é, então, composta no plano da passagem musical, transposta para a literatura. Essa é a base do contraponto artístico. Esse é um dos princípios da polifonia.
Podemos ver, então, através da análise de Berman e de Bakhtin, que Dostoiévski é fruto de seu tempo, mas não é determinado puramente por ele. Há um toque de criatividade, algo que se desprende do tempo, que é eterno. Para Bakhtin, esse eterno dostoievskiano é a polifonia de seus romances, pois é nisso que consiste o novo de Dostoiévski: na percepção de que existem múltiplas consciências e de que elas são independentes, autônomas, umas das outras. Elas convivem entre si, elas interagem, elas dialogam e não há uma conclusão – o diálogo persiste, ele não é dialético.
“Onde outros viam apenas uma idéia ele conseguia sondar e encontrar duas idéias, um desdobramento; onde outros viam uma qualidade, ele descobria a existência de outra qualidade, oposta (…). Mas essas contradições e esses desdobramentos não se tornaram dialéticos, não foram postos em movimento numa via temporal, numa série em formação mas se desenvolveram em um plano como contíguos e contrários, consonantes mas imiscíveis ou como irremediavelmente contraditórios, como harmonia eterna de vozes imiscíveis ou como discussão interminável e insolúvel entre elas. A visão de Dostoiévski era fechada nesse momento da diversidade desabrochada e permanecia nele, organizando e dando forma a essa diversidade no corte de um dado momento”.[8]


[1] Mikhainl Bakhtin. Problemas da Poética de Dostoievski. Tradução de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008, p. 5. Os destaques em itálico são sempre feitos pelo autor.

[2]Idem. pp. 4-5. “Eqüipolentes são consciências e vozes que participam do diálogo com as outras vezes em pé de absoluta igualdade, não se objetificam, isto é, não perdem o seu SER enquanto vozes e consciências autônomas (N. do T.)”.

[3]Idem. p.10.

[4]Idem. p.49.

[5]Idem. p.47.

[6]BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

[7]BAKHTIN, Mikhail. Op. Cit. p.48-49.

[8]Idem. p.34.