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O GENERAL EM SEU LABIRINTO

27 de julho de 2009

Neste trabalho irei comentar o livro de Gabriel García Márquez, O general em seu labirinto.[1] Trata-se de uma narrativa sobre os últimos meses de vida do herói sul-americano Simón Bolívar. O autor mostra todo o sofrimento do general nesses últimos meses de vida, suas crises respiratórias, seus dilemas amorosos e políticos (estes que se confundiam com seus dilemas pessoais) e, por fim, sua dependência de seu criado José Palácios. Talvez possamos dizer que o livro pretende mostrar que até os mitos têm uma vida dura e injusta.

Simón Bolívar, também conhecido como O Salvador, foi um dos grandes heróis das independências americanas: lutou pela independência dos países pertencentes ao antigo reino de Nova-Granada (Colômbia, Venezuela, parte do Peru, Bolívia, cujo nome é em homenagem ao Salvador). Seu principal objetivo era fazer do continente, ou pelo menos da região de Nova-Granada, um único país. Não conseguiu o que queria, mas nunca deixou de lutar.

García Márquez mostra um Bolívar contraditório, não apenas pelos seus atos, mas pela visão que se tinha dele: algumas vezes visto como o grande herói, outras como o grande carrasco. Visões repartidas sobre a unidade americana pretendida por ele; questões políticas que passavam pelos sentimentos patrióticos/nacionalistas; um general amado e odiado por seus oficiais; um grande homem, com grandes intenções, num corpo pequeno e frágil, que diminuiu ainda mais com o passar do tempo, até sua morte.

Este personagem foi, sem dúvida, um dos grandes mitos americanos. Mas, para fazer essa afirmação, é preciso, primeiro, discutir o que é um mito e, mais precisamente, o que é um mito político. Raoul Girardet, em seu Mitos e mitologias políticas, faz uma interessante discussão sobre o assunto. O autor diz que o

“mito político é fabulação, deformação ou interpretação objetivamente recusável do real. Mas, narrativa legendária, é verdade que ele exerce também uma função explicativa, fornecendo certo número de chaves para a compreensão do presente, constituindo uma criptografia através da qual pode parecer ordenar-se o caos desconcertante dos fatos e dos acontecimentos.”[2]

O autor ainda chama a atenção para

“a impossibilidade, presente na maioria dos casos (e qualquer que seja o valor metodológico da distinção anteriormente feita), de traçar uma linha de demarcação relativamente precisa entre a fabulação legendária e o relato de ordem histórica.”[3]

Como estas questões aparecem no caso de Simón Bolívar? O romance de García Márquez é uma boa fonte para vermos isso. O general, personagem principal de sua narrativa, está beirando a morte: suas crises respiratórias pioram sem parar, seu corpo diminui de tamanho ao passar dos dias e ele não é mais amado por todos, como outrora. A narrativa mescla o tempo “presente”, no qual se passa a história, a viagem de Bolívar para a morte, e os tempos passados, retomados pelo autor como os dias de glória do Salvador.

Durante sua última noite em Honda, o general dançou valsa com tanto entusiasmo e com uma maestria juvenil que acabou com os boatos de que estava à morte. Mas estava já com as forças reduzidas e precisava se recompor durante os intervalos, aspirando os vapores de um lenço com água-de-colônia. Depois da meia-noite, quando estava em casa, encontrou uma mulher elegante e com uma fragrância primaveril. Era Miranda Lyndsay, que havia conhecido quinze anos antes na Inglaterra. [4] A partir dessa lembrança, García Márquez conta da estadia de Bolívar na ilha, quando escreveu sua famosa Carta da Jamaica.

Nesse trecho do romance podemos notar a imagem paradoxal do personagem principal que, sem ter mais forças, dançou com maestria juvenil enquanto fazia suas inalações de vapores nos intervalos, despistando, dessa forma, aqueles que imaginavam a proximidade da morte do general. Enganando a morte, encontra seu glorioso passado, o tempo em que passou na Inglaterra estudando e formulando seus planos de libertar a América da Espanha. Um momento de nostalgia, o qual só aparece quando algo não faz mais parte do presente, o momento no qual se toma consciência de que aqueles dias estão no passado e que o presente não é belo.

A figura de Simón Bolívar parece se referir a isto: um sonho de glória para toda a América, acreditado, durante algum tempo, por muitos, mas que logo foi desiludido pelo presente, cuja imagem é o contraste daquele lindo sonho de um grande e único país. Conforme este presente vai se firmando, o general faz sua viagem para a morte, como se sua vida estivesse relacionada única e exclusivamente com o sucesso da unidade do continente.

O Salvador é visto, hoje, como uma figura da esquerda sul-americana, confundido, algumas vezes, com os ideais de Che Guevara de levar a revolução aos outros países da América, além de Cuba. Se isso acontece é por interesses de nosso presente, como diz Girardet:

“qualquer que seja o caso, a experiência mostra que cada uma dessas ‘constelações’ mitológicas pode surgir dos pontos mais opostos do horizonte político, pode ser classificada à ‘direita’ e à ‘esquerda’, segundo a oportunidade do momento.”[5]

Fazendo uma comparação, talvez esdrúxula, Simón Bolívar se enquadra entre os homens “extraordinários” da teoria de Raskólnikov, personagem principal da obra prima de Dostoiévski, Crime e castigo. Em meio a sua doença por causa da culpa de ter matado uma velha usurária, o personagem é questionado sobre um artigo seu, cuja teoria consistia em que o mundo é dividido entre os homens “ordinários” e “extraordinários”. Para explicar melhor darei voz à Raskólnikov:

“Eu insinuei pura e simplesmente que ‘o homem extraordinário’ tem o direito… ou seja, não o direito oficial, mas ele mesmo tem o direito de permitir à sua consciência passar… por cima de diferentes obstáculos, e unicamente no caso em que a execução da sua idéia (às vezes salvadora, talvez, para toda a humanidade) o exija.”[6]

O general, comparado com Napoleão por Miranda, parece se permitir cometer alguns crimes, como assassinatos, para ficar no exemplo do livro de Dostoiévski, para executar sua idéia, tal como fez Napoleão, um dos “homens extraordinários”, na Europa. Bolívar não viu limites ou obstáculos insuperáveis para atingir seu objetivo, mas acabou subestimando um limite físico, de seu próprio corpo, e morreu a 17 de dezembro de 1830, vítima da tuberculosa, que teimava em não tratar com os médicos, preferindo as receitas caseiras e supersticiosas.

“Então cruzou os braços contra o peito e começou a ouvir as vozes radiosas dos escravos cantando a salve-rainha das seis nos trapiches, e avistou no céu pela janela o diamante de Vênus que ia embora para sempre, as neves eternas, a trepadeira cujas campânulas amarelas não veria florescer no sábado seguinte na casa fechada pelo luto, os últimos fulgores da vida que nunca mais, pelos séculos dos séculos, tornaria a se repetir.”[7]


[1] MÁRQUEZ, Gabriel García. O general em seu labirinto. Rio de Janeiro: Editora Record, 1989.

[2] GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Cia. Das Letras, 1987. p. 13.

[3] Ibidem. p. 71.

[4] MÁRQUEZ, Gabriel García. Op. Cit. p. 81.

[5] GIRARDET, Raoul. Op. Cit. p. 12.

[6] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. São Paulo: Editora 34, 2001. p. 269.

[7] MÁRQUEZ, Gabriel García. Op. Cit. p. 266.

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