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Recordações do escrivão Isaías Caminha

31 de julho de 2012

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BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Alfredo Bosi, na introdução que faz das Recordações do escrivão Isaías Caminha, obra de estreia de Lima Barreto, afirma, logo no começo de seu texto, que o autor “adota os recursos da escrita realista autobiográfica, já trabalhada em tom reflexivo por Flaubert na Educação Sentimental e nos romances em primeira pessoa de Dostoiévski Humilhados e ofendidos e Recordações da casa dos mortos.”[1] De fato, são muitas as referências da vida de Lima Barreto presentes na história de Isaías, mas creio que o romance acaba se esquivando um pouco dos relatos autobiográficos.

Penso que Lima Barreto se aproxima muito mais de Dostoiévski que de Flaubert. É verdade que há um realismo em sua obra, mas há passagens importantes de Recordações que são citações indiretas ao escritor russo. Um leitor atento de Memórias do subsolo logo nota que na seguinte passagem da via de Caminha há referência à vida daquele baixo funcionário dostoievskiano:

“Num relâmpago, passaram-me pelos olhos todas as misérias que me esperavam, a minha irremediável derrota, a minha queda aos poucos – até onde? até onde? E ficava assombrado que aquela gente não notasse o meu desespero, não sentisse a minha angústia… ‘Imbecis!’, pensei eu. Idiotas que vão pela vida sem examinar, vivendo quase por obrigação, acorrentados às suas misérias como galerianos à calceta!” (p. 121).

A camada inferior à qual está submetida o funcionário de Memórias de subsolo é, de certa maneira, reinterpretada por Lima Barreto. A Rússia de meados do XIX era uma sociedade extremamente hierarquizada e é isso que incomoda o herói da novela de Dostoiévski, pois ele é culto, inteligente, com boas ideias, dignidade e um baixo funcionário – o que o torna desprezível a priori. No Rio de Janeiro de Lima Barreto acontece algo semelhante. Isaías é desprezível também e igualmente culto, com boas ideias e inteligente. O Brasil do final do XIX, republicano já, não tem uma hierarquia oficialmente definida, mas há uma certa cultura, uma certa forma de se organizar a sociedade, que exclui o negro e o despreza. Isaías Caminha, como Barreto, é negro e isso já basta para que seja desqualificado a priori, tal como o personagem de Dostoiévski.

Aliás, na novela russa o protagonista, em certa passagem, anseia por uma briga; enquanto anda pelas ruas de São Petersburgo, vê um homem sendo jogado pela janela de um casa de bilhas e deseja ser jogado também, tal era o seu sentimento de angústia e indignação. Ele entra no estabelecimento, procurando briga:

“Logo de início, um oficial teve atrito comigo.

Eu estava em pé junto à mesa de bilhar, estorvava a passagem por inadvertência, e ele precisou passar; tomou-me então pelos ombros e, silenciosamente, sem qualquer aviso prévio ou explicação, tirou-me do lugar em que estava, colou-me em outro e passou por ali, como se nem sequer me notasse. Até pancadas eu teria perdoado, mas de modo nenhum poderia perdoar que ele me mudasse de lugar e, positivamente, não me notasse.

O diabo sabe o que não daria eu, naquela ocasião, por uma briga de verdade, mais correta, mais decente, mais – como dizer? – literária! Fui tratado como uma mosca. Aquele oficial era bem alto, e eu sou um homem baixinho, fraco. A briga, aliás, estava em minhas mãos: bastava protestar e, naturalmente, seria posto janela afora. Mas eu mudei de opinião e preferi… apagar-me, enraivecido.”

O funcionário fica indignado porque não é sequer notado pelo oficial, que simplesmente o pega pelos ombros e afasta de seu caminho, como se fosse uma mosca que se espanta da mesa. De pronto, ele deseja brigar com o oficial, mas “preferi… apagar-me, enraivecido.” No romance de Lima Barreto, em certa altura da narrativa, Isaías sente algo parecido quando anda no bonde:

            “Um sujeito entrou no bonde, deu-me um grande safanão, atirando-me o jornal ao colo, e não se desculpou. Esse incidente fez-me voltar de novo aos meus pensamentos amargos, ao ódio já sopitado, ao sentimento de opressão da sociedade inteira… Até hoje não me esqueci desse episódio insignificante que veio reacender na minha alma o desejo feroz de reivindicação. Senti-me humilhado, esmagado, enfraquecido por uma vida de estudo, a servir de joguete, de irrisão a esses poderosos todos por aí.” (p. 122).

Ambos os personagens desejam serem notados. Aqueles que esbarram neles, que os tiram do caminho, não os percebem enquanto pessoas, mas como algo desprezível. Pedir-se-ia desculpas a alguém que incomodamos; mas, para isso é necessário ver o outro – certamente o oficial russo e o passageiro do bonde não viram o baixo funcionário e Isaías, pelo menos não como pessoas.

O personagem de Dostoiévski, depois do episódio ocorrido na casa de bilhar, anseia por um pedido de desculpas que não vem. Ele, então, passa a frequentar a Avenida Niévski enquanto planeja um modo de se fazer notar pelo oficial e acaba percebendo que seu “inimigo” frequenta a mesma Niévski. Seu plano passa a ser trombar com esse oficial, a fim de se fazer notar:

“Do modo como eu me preparava e ajeitava para aquilo, parecia que mais um pouco e íamos dar o encontrão; mas reparava e… mais uma vez eu tinha cedido caminho, e ele passava sem sequer me notar. […] De uma feita, até me decidira de vez, mas, por fim, apenas caí diante dele, porque, no instante derradeiro, à distância de uns dois vierchokes, faltou-me coragem.”

Isaías Caminha também tem essa ânsia por ser notado, por ser considerado uma pessoa nessa sociedade brasileira do início do século XX, mas como ele era desprezado…

“Veio-me um assomo de ódio, de raiva má, assassina e destruidora; um baixo desejo de matar, de matar muita gente, para ter assim o critério da minha existência de fato. Depois dessa violenta sensação na minha natureza, invadiram-me uma grande covardia e um pavor sem nome: fiquei amedrontado em face das cordas, das roldanas, dos contrapesos da sociedade; senti-os por toda parte, graduando os meus atos, anulando os meus esforços; senti-os insuperáveis e destinados a esmagar-me, reduzir-me ao mínimo, a achatar-me completamente.” (p. 121).

Certamente que essas passagens são apenas fragmentos dos textos analisados, mas eles servem para exemplificar o ponto de aproximação que existe entre Lima Barreto e Dostoiévski. E, assim como o romancista russo, o brasileiro não irá se preocupar em fazer um romance autobiográfico. Se, por ventura aparecem elementos particulares do autor na vida de suas personagens, isso não faz do romance autobiográfico. Essas referência servem como pontos de encontro entre a ficção e a realidade. Um bom leitor de Dostoiévski certamente é capaz de identificar diversas passagens de seus escritos que foram inspirados em acontecimentos de sua vida – como a novela Um jogador. Entretanto, não é o relato autobiográfico que está em jogo, mas a percepção da sociedade e dos sentimentos presentes nela. Ao descrever o acontecimento na casa de bilhar, o autor russo não quer descrever unicamente os acontecimentos, tal como o faria um historiador do século XIX; ele está preocupado em descrever um estado de espírito.

Da mesma forma, Lima Barreto não se preocupa com as referências autobiográficas. Se fosse assim, seu Recordações de Isaías Caminha seria um romance duplamente autobiográfico. Ao que me parece, a preocupação do autor, aí sim, tanto de Lima Barreto, quanto de Isaías Caminha, é descrever um certo estado em sociedade; não são acontecimentos que compõem o principal da obra, mas um certo sentimento. Numa passagem metalinguística isso parece ficar evidente:

“Penso – não sei por quê – que é este meu livro que me está fazendo mal… E quem sabe se excitar recordações de sofrimentos, avivar as imagens de que nasceram não é fazer com que, obscura e confusamente, me venham as sensações dolorosas já imortais? Talvez mesmo seja angústia de escritor, porque vivo cheio de dúvidas, e hesito de dia para dia em continuar a escrevê-lo. Não é o seu valor literário que me preocupa; é sua utilidade para o fim que almejo.” (p. 136).

Pode-se imaginar o que deixa Isaías mal. As passagens citadas até aqui são de sofrimento. Vale lembrar que as recordações estão sendo escritas por Isaías na medida em que lemos o livro e, portanto, as sensações presentes no personagem são atuais (na medida em que tanto o Isaías personagem, como o autor das recordações são o mesmo e, em nenhum momento se faz presente Lima Barreto).

Em Recordações do escrivão Isaías Caminha, Lima Barreto pretende fazer um romance sobre o preconceito, a humilhação social, sobre as cordas, roldanas e contrapesos da sociedade. As primeiras páginas do livro dão o tom. Isaías descreve como foi tratado mal ao chegar no Rio de Janeiro. As pessoas, sem o conhecerem, o tratavam como um inferior e ele, inocente e sem saber o motivo daquele tipo de tratamento, questiona-se sobre a próprio fisionomia, a própria moral, como se o problema estivesse realmente nele e não na descriminação social do negro.

Como em Dostoiévski, Recordações usa elementos autobiográficos e acontecimentos verdadeiros (como a referência à Revolta da Vacina, presente como a lei da obrigatoriedade dos sapatos no romance) para tratar de um assunto que está fora da pessoa Lima Barreto e Isaías Caminha; o livro trata do preconceito, do sentimento de quem é atacado por isso.


[1] BOSI, Alfredo. “Figuras do eu nas recordações de Isaías Caminha”, In: BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 10.

Literatura Como Missão

5 de agosto de 2009

literatura_como_missao Nicolau Sevcenko, em Literatura como Missão: Tensões Sociais e Criação Cultural na Primeira República, procura entender a mudança entre o Império e a República através da literatura, que para ele parece um meio de luta social e contestação de algumas atitudes tomadas durante a transição. Dois escritores são privilegiados nessa análise, Euclides da Cunha e Lima Barreto. Ambos usam a escrita como meio de comunicação com a população, tentando chamar a atenção de seus leitores para o que estava acontecendo durante a transição de um sistema para outro.
Eles não fazem parte do mesmo círculo de intelectuais e estão longe de terem as mesmas idéias. Segundo Sevcenko é provável que nunca tenham se cruzado nas ruas do Rio de Janeiro – palco de toda a ação do livro. Apesar dessa oposição, Euclides e Lima eram herdeiros daquela geração chamada de “mosqueteiros intelectuais”, a geração modernista de 1870. Foram justamente esses intelectuais que lutaram para a queda do Império, foram os atores principais – apoiados principalmente no positivismo que chegava da Europa. Terminado o reinado de D. Pedro II instaura-se a República tão desejada e sonhada. Conforme o tempo passa e as mudanças tomam rumos que não foram desejados, os intelectuais vão se desiludindo com o novo sistema de governo.
Expoentes dessa desilusão, Euclides da Cunha e Lima Barreto vão lutar, cada um com suas idéias e princípios contra o rumo que as coisas tomavam naquele momento. A literatura talvez seja o campo que dê mais clareza do que estava acontecendo durante as transformações:

“As décadas em torno da transição dos séculos XIX e XX assinalaram mudanças drásticas em todos os setores da vida brasileira. Mudanças que foram registradas pela literatura, mas sobretudo mudanças que se transformaram em literatura. Os fenômenos históricos se reproduziram no campo das letras, insinuando modos originais de observar, sentir, compreender, nomear e exprimir.”
“Por outro lado, os valores éticos e sociais mudaram tanto no nível das instituições e dos comportamentos como no plano das peças literárias. Os textos artísticos se tornaram, aliás, termômetros admiráveis dessa mudança de mentalidade e sensibilidade”.[1]

Dessa forma, o livro de Nicolau Sevcenko parece entender de maneira peculiar as tensões sociais da Primeira República. Não foi à toa a escolha desses dois autores para a análise. Eles não são representantes das mudanças e dos rumos tomados pela República; ao contrário, esses autores a criticam duramente – mas cada um a seu modo. Sua escolha deve-se, segundo Sevcenko, por representarem as opções que poderiam ser escolhidas, mas acabaram deixadas de lado. Nem mesmo Euclides da Cunha, ligado ao Barão do Rio Branco, estava satisfeitos com os rumos políticos e econômicos do país. Lima Barreto, com uma literatura libertária, não está nada satisfeito, nem mesmo com o principal meio de comunicação, que aliás ele utilizava muito, os jornais.
Analisando a obra de Euclides e Lima, Literatura como Missão entende que o primeiro procurava fazer daquilo que aprendera com o positivismo de Comte e Spencer a realidade brasileira, enquanto que o segundo procurava livrar-se desse cientificismo, procurando uma sociedade pautada na solidariedade, sem distinções e sem privilégios. Como diz Nicolau Sevcenko:

“Fica igualmente acentuado o empenho despendido pelos autores no sentido da assimilação e participação nos processos históricos em curso. Situação essa que reveste suas produções intelectuais de uma dupla perspectiva documental: como registro judicioso de uma época e como projetos sociais alternativos para a sua transformação”. [2]

Para fazer tal análise, Nicolau Sevcenko buscou referências em grandes manuais: História geral da civilização brasileira, volume 7, sob organização de Sérgio Buarque de Holanda; o Dicionário literário brasileiro, de Raimundo de Meneses; e a História geral das civilizações, organizada por Maurice Crouzet, volumes 13 ao 17. Claro que sua leitura não se restringiu a isso.
Sobre o período estudado, constam autores como E. Hobsbawm, M. Dobb, B. Jouvenel e H. Arendt. No que se refere à história social da cultura, Nicolau Sevcenko buscou as obras de A. Hauser, M. Foucault e F. Meinecke. No campo de crítica, estética e teoria e história literária procurou autores renomados na área da literatura, como Antonio Candido e Tzvetan Todorov, além de Walter Benjamin, que escreveu muito sobre a arte. Ainda constam autores como Alfredo Bosi, Theodor Adorno, Roger Bastide e Umberto Eco.
As fontes para o trabalho são obras literárias, principalmente de Lima Barreto e Euclides da Cunha, mas constam também alguns textos de Machado de Assis, Eça de Queirós, José de Alencar, Joaquim Nabuco, Graça Aranha, Aloísio Azevedo, entre outros. Os periódicos também aparecem muito, principalmente os do Rio de Janeiro, como o Jornal do Comércio, a Revista Fon-fon e a Revista Americana. Apenas a Revista do Brasil é de São Paulo.
Este trabalho de Nicolau Sevcenko foi pioneiro em seu campo de pesquisa, o que gerou um certo preconceito contra Literatura como Missão na academia, ganhando o apelido de Literatura como Omissão. Em uma entrevista o autor conta as dificuldades que teve para desenvolver seu trabalho e o importante apoio que teve de sua orientadora, Maria Odila.[3] Acontece que hoje é obra de referência nos estudos de história que procuram usar obras literárias como documentos e fontes. O autor explica:

“Nem reflexo, nem determinação, nem autonomia: estabelece-se entre os dois campo [história e literatura] uma relação tensa de intercâmbio, mas também de confrontação. A partir dessa perspectiva, a criação literária revela todo o seu potencial como documento, não apenas pela análise das referências esporádicas a episódios históricos ou do estudo profundo dos seus processos de construção formal, mas como uma instância complexa, repleta das mais variadas significações e que incorpora a história em todos os seus aspectos, específicos ou gerais, formais ou temáticos, reprodutivos ou criativos, de consumo ou de produção. Nesse contexto globalizante, a literatura aparece como uma instituição, não no sentido acadêmico ou oficial, mas no sentido em que a própria sociedade é uma instituição, na medida em que implica uma comunidade envolvida por relações de produção e consumo, uma espontaneidade de ação e transformação e um conjunto mais ou menos estável de códigos formais que orientam e definem o espaço da ação comum.”[4]

Sevcenko parece ir no caminho de um de seus mestres espirituais, o professor Sérgio Buarque de Holanda, membro da banca quando Literatura como Missão foi defendido como tese de doutorado. O professor Sérgio já havia feito uma obra sem igual na historiografia brasileira, Visão do Paraíso, procurando entender, através da literatura, os motivos da edenização na colonização da América Portuguesa.

[1]SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: Tensões Sociais e Criação Cultural na Primeira República. São Paulo: Cia. Das Letras, 2003, pp. 286-287.
[2]Ibidem. p. 237.
[3]MORAES, José Geraldo Vinci de; REGO, José Marcio. Conversas com historiadores brasileiros. São Paulo: Editora 34, 2002. pp. 335-362.
[4]SEVCENKO, Nicolau. Op. Cit. p. 299.