Posts Tagged ‘teoria da história’

O PROBLEMA DA CONSCIÊNCIA HISTÓRICA

25 de julho de 2009

consciência históricaGADAMER, Hans-Georg. O problema da consciência histórica. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2006.

Trata-se de cinco conferências, organizadas por Pierre Fruchon, sobre a consciência histórica e a hermenêutica. Apesar de ser um livro pequeno, com 71 páginas apenas, seu conteúdo é extremamente complexo e bem desenvolvido. Tentarei, daqui para frente, sintetizar as principais idéias de Gadamer, sem me preocupar em dar o mesmo espaço para todas as conferências – o que quero desenvolver são as linhas de raciocínio do conferencista.
Primeiramente Gadamer procura definer o que é a consciência histórica: “Entendemos por consciência histórica o privilégio do homem moderno de ter plena consciência da historicidade de todo presente e da relatividade de toda opinião” (p.17). Essa tomada de consciência repercute em todas as atividades do ser humano, principalmente nas atividades intelectuais – passamos, então, a refletir, ou seja, começamos a nos colocar no lugar do outro. E esse modo de reflexão, seguno Gadamer, pode ser chamado, também, de senso histórico, que ele define do seguinte modo: “Ter senso histórico é superar de modo consequente a ingenuidade natural que nos leva a julgar o passado pelas medidas supostamente evidentes de nossa vida atual, adotando a perspectiva de nossas instituições, de nossos valores e verdades adquiridos. Ter senso histórico significa pensar expressamente o horizonte histórico coextensivo à vida que vivemos e seguimos vivendo” (p.18).
Definido isso, o autor afirma que a consciência moderna assume uma posição reflexiva, portanto, com relação ao que lhe é transmitida pela tradição. “Esse comportamente reflexivo diante da tradição chama-se interpretação” (pp.18-19). E a primeira pressuposição dela é o “estranho” daquilo que se quer compreender. O que é imediatamente evidente não requer uma interpretação, segundo Gadamer. Somente aquilo que nos é estranho precisa ser interpretado, para ser compreendido. Retomando a idéia de que temos consciência histórica, diz o autor: “O diálogo que travamos com o passado nos coloca diante de uma situaçãofundamentalmente diferente da nossa – uma situação ‘estranha’, diríamos -, que consequentementeexige de nós um procedimento interpretativo” (pp.19-20).
Feito esse “mapeamento” da nossa consciência histórica, Gadamer trata das ciências naturais e humanas (ou históricas). Para ele, o modelo de ciência é o das exatas, que tarbalha com regularidades empíricas. Esse modelo teria sido transposto às ciências humanas quando elas começaram a surgir. Muitos problemas são detectados pelo autor, por causa dessa adptação às ciências exatas. O mais significativo é exatamente o de ver a regularidade. Ela não existe na história. Cada evento deve ser tratado como um evento único. Gadamer começa, então, a diferenciar as exatas das humanas. Trata de Aristóteles, Dilthey, Heidegger, Kant, enfim, autores que tratam da hermenêutica, ou da interpretação científica. “Com efeito, o problema posto pela hermenêutica pode ser definido pela seguinte questão: que sentido se deve dar ao fato de que uma única e mesma mensagem transmitida pela tradição seja, não obstante, apreendida sempre de maneira diferente, isto é, em relação à situação histórica concreta daquele que a recebe?” (p.47).
Não pretendi, neste breve comentário, tratar de todo o livro. Apenas as idéias que me pareceram mais relevantes foram postas e, mesmo assim, sem a discussão necessária que elas mereceriam ter. Meu objetivo foi apenas de trazer ao leitor o conhecimento desse livro, riquíssimo.

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FUTURO PASSADO

25 de julho de 2009

Futuro PassadoKOSELLECK, Reinhardt. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto Editora; Editora PUC Rio, 2006.

Este livro é uma coletânea de artigos que tratam, de modo geral, de um tema comum: responder a questão “o que é o ‘tempo histórico'”? Koselleck nos explica melhor seus objetivos: “Todos os testemunhos atestam a maneira como a experiência do passado foi elaborada em uma situação concreta, assim como a maneira pela qual expectativas, esperanças e prognósticos foram trazidos à superfície da linguagem. De maneira geral, pretendeu-se investigar a forma pela qual, em um determinado tempo presente, a dimensão temporal do passado entra em relação de reciprocidade com a dimensão temporal do futuro.
“A hispótese que se apresenta aqui é a de que, no processo de determinação da distinção entre passado e futuro, ou, usando-se a terminologia antropológica, entre experiência e expectativa, constitui-se algo como um ‘tempo histórico'” (Prefácio, pp.15-16).
Cada presente teve seu modo de ver o passado e o futuro, que certamente influenciou as tomadas de decisões políticas, econômicas, bélicas etc. O tempo cristão, escatológico, que prevê sempre o fim do mundo, o tempo de Santo Agostinho, é um tempo que não tem nada de novo. Ou melhor, tudo é novo para o indivíduo que vive esse tempo, mas como ele é apenas a experiência de deus na Terra nada do que ele vive é inédito, portanto a perspectiva de mudança, de um futuro, está no dia do Juízo Final, que é o fim dos tempos, a volta ao Paraíso.
O assunto é bem complicado, mas o primeiro artigo, “O futuro passado dos tempos modernos”, é esclarecedor. Koselleck parte da análise do quadro A Batalha de Alexandre, de Albrecht Altdorfer, pintado em 1528. O tema do quadro é a Batalha de Issus, ocorrida no ano de 333 a.C., marco do começo da época helenística. Ao contemplar a pintura, Koselleck nota que os persas assemelham-se aos turcos, que no ano da composição do quadro sitiaram Viena. “Em outras palavras, Altdorfer captou um acontecimento histórico que era, ao mesmo tempo, contemporâneo para ele. Alexandre e Maximiliano (Altdorfer pintou o quadro para este último) assemelham-se de maneira exemplar. O espaço da experiência nutria-se, portanto, da perspectiva de uma única geração histórica”. “Não se trata de eliminar arbitrariamente uma diferença temporal; ela simplesmente não se manifesta como tal” (p.22).
Trezentos anos depois, Schlegel, quando viu o quadro pela primeira vez, foi tomado por uma perplexidade sem limites. Ele é capaz de distinguir o quadro tanto de seu tempo quanto da época antiga, representada na pintura. “Grosso modo, nos trezentos anos que o separam de Altdorfer, transcorreu para Schlegel mais tempo, de toda maneira um tempo de natureza diferente daquele que transcorrera para Altdorfer, ao longo dos cerca de 1.800 anos que separam a Batalha de Issus e sua representação” (p.23). Agora, como fazer este estudo, como entender essa aceleração do tempo que, neste caso, passou mais rápido em 300 anos (de 1500 até 1800) do que em 1.800 (300 a.C. até 1500 d.C.)?
Papel fundamental para a pesquisa de Koselleck é o campo da História dos Conceitos. É esse o ramo teórico que permite ao historiador captar o tempo histórico de cada período. Ao longo dos 14 artigos reunidos no livro, um conceito assume um papel destacado. Justamente o conceito de História; em alemão, História era Historie, que designava a narrativa, o relato de um evento. Ao longo do tempo o termo foi substituído por Geschichte, que designava o fato em si. Porém, quando Geschichte passou a ser usado no lugar de Historie, o conceito juntou o sentido de fato, acontecimento, com o de relato, narrativa. “A história [Geschichte] adquire então uma nova dimensão que escapa à narratividade dos relatos, ao mesmo tempo que se torna impossível capturá-la nas afirmações que se fazem sobre ela” (p.49).
Além de desenvolver uma teoria da história, voltada para a história dos conceitos, Koselleck procura afirmar o papel positivo que esse campo da história tem, podendo ajudar pesquisas em outros campos, como no da história social (o mais desenvolvido). Ele explica: “Na exegese do tecxto, o interesse especial pelo emprego de conceitos político-sociais e a análise de seuas significações ganham, portanto, uma importância de caráter social e histórico. Os momentos de duração, alteração e futuridade contidos em uma situação política concreta são apreendidos por sua realização no nível lingüístico. Com isso, ainda falando de modo geral, as situações sociais e respectivas alterações já são problematizadas no próprio instante dessa realização lingüística” (p.101).
Grosso modo, esse estudo dos conceitos contribui para o historiador não cair em anacronismos, como muitas vezes acontece com os historiadores das idéias, que pegam um conceito, ou uma idéia, e procuram ver no tempo e no espeço onde ela aparece, quase sempre de maneira inalterada. Ao contrário, a história dos conceitos procura entender as mudanças das estruturas de pensamento através da exegese textual, ou seja, através do estudo histórico dos conceitos. Além de dar uma segurança maior ao historiador, evitando o anacronismo, a história dos conceitos permite chegar a problematizações que, do ponto de vista da história social, estão escondidas.
Aqui procurei tratar de Futuro Passado com uma visão panorâmica, sem me deter nos detalhes teóricos e metodologicos que o autor desenvolve em cada artigo. Contudo me restringi a comentar três artigos, “O futuro passado dos tempos modernos”, “Historia Magistra Vitae – Sobre a dissolução do topos na história moderna em movimento” e “História dos conceitos e história social”, respectivamente.